ENTREVISTA // com a Revista Sanitório Geral

De RuPaul a Freud: Conheça o Drag Therapy

By Alice Nation

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...ou aproveita que o texto segue aqui...

Imagine essa cena: você chega para uma consulta com seu analista, entra na sala, deita no divã, e é atendido por uma drag queen! Bem, não é bem assim que o DragTherapy funciona, pois somos espontâneas demais para algo tão formal, porém, no processo de “montação” escondem-se várias habilidades que não prestamos atenção!

Abba Cashier, idealizadora do projeto, observou isso e se debruçou para criar uma espécie de “Arteterapia Drag”. Mais que uma simples brincadeira  – mesmo que seja feito de forma divertida -, o DragTherapy é uma saga de descobrimento.

Conversei com Abba e pedi para que explicasse detalhes da ideia. Confiram:


Alice Nation: O que é o DragTherapy? Como e por que ele surgiu?

Abba Cashier: DragTherapy é um projeto que surgiu depois de eu ter tentando inventar uma reposta rápida à pergunta frequente: ‘por quê que você se monta? / o que significa drag para você?’. Depois de responder com ‘terapia’ pela quarta, quinta vez, eu parei para pensar que talvez, de repente, houvesse alguma verdade nessa ideia.

Antes de vir para o Brasil, fiz um Mestrado em Imaginação Aplicada no Central Saint Martins, em Londres, onde desenvolvi um projeto que explorava novas formas de trabalhar desenvolvimento pessoal e profissional.

Quando caiu a ficha que talvez houvesse um vinculo entre drag e terapia mesmo, na hora eu quis pensar em maneiras de abrir essa ideia para um publico maior e explorá-la com mais atenção. Organizei as primeiras rodas de conversas (usando a metodologia do Mestrado), que depois viraram o formato aberto do #draglab, que mantemos até hoje.

 

AN: Quais foram as habilidades que você, Abba Cashier, adquiriu fazendo drag e como aplicou isso em sua carreira?

AC: As habilidades que eu adquiri me montando com frequência, e agora com a intenção de me profissionalizar cada vez mais nessa área, são principalmente (em linguagem corporativa) de planejamento, parcerias, marketing digital, produção/gestão de projetos:

• planejamento porque cada montação e ação envolve vários elementos (peruca, roupa, produtos de maquiagem, adereços) e a logística de aprontar e recolher todos os recursos necessários para usar na hora que precisar;

• parcerias: porque ninguém pode fazer tudo sozinho, independentemente de se você está fechando parceiras para terceirizar algum serviço (de costura/penteado, gravação e/ou edição de conteúdo, etc), se está colorando num projeto ou apenas pedindo ajuda. Você precisará conseguir conversar suas ideias e chegar a acordos de forma efetiva;

• produção: porque ser uma drag ativa demanda decisões constantes sobre o quê pode ser produzido com os recursos que você tem – sendo principalmente tempo e dinheiro -, mantendo uma visão macro de todos os eventos, conteúdos e compromissos futuros. Quanto você consegue executar sozinho dentro do prazo e orçamento que tem? Quanto sono consegue/está disposto a sacrificar para alcançar o resultado final que busca até lá? Quais partes desse projeto/processo você consegue terceirizar/pedir ajuda?;

• direção criativa: edição e curadoria porque para sua drag ter reconhecimento precisará ter algo reconhecível. Desenvolver sua mensagem, linguagem e imagem de forma harmônica e complementar é um trabalho recorrente de refinamento gradual, conforme você explora e experimenta com novos estilos e vai sentindo sua reação e a do público;

• marketing digital: porque você pode desenvolver trabalhos maravilhosos que acabam não tendo a repercussão e reconhecimento que merecem se não investir em ter uma presença online e alguma estratégia para conseguir atingir uma exposição maior para seu trabalho.

 

AN: Como tem sido o feedback dos participantes dos workshops e palestras?

AC: O feedback tem sido quase sempre positivo. As pessoas geralmente chegam um pouco confusas ou inseguras do que eles vão ver/vivenciar conosco, mas depois parecem ter sido positivamente surpreendidas.

Cada um geralmente acaba inventando sua própria forma de explicar o que fazemos em suas próprias palavras. Ouvimos que o que fazemos é coaching, é engenharia drag, é terapia. Essas tentativas resumem o que realmente está acontecendo em nossos encontros e sempre são interessantes de escutar.

Uma dificuldade que ainda enfrentamos é justamente conseguir comunicar e vender o que esperar de nossos encontros e dragtividades – parece que é preciso comparecer para saber explicar. De um lado isso nos incomoda, porque gostaríamos que alcançar um publico maior, mas ao mesmo tempo parece que gera um certo mistério, que de certa forma é divertido.

 

AN: Como as pessoas reagem num primeiro momento, ao conhecer o DragTherapy? E qual o principal obstáculo você identifica que elas têm para ‘se jogar’?

AC: As pessoas ficam primeiramente confusas – sobre o que exatamente estaríamos propondo. Então ficam surpresas que o projeto existe com esse intuito e que alguém está levando isso a sério. Depois de participar costumam ficar felizes de ter conseguido se abrir à conversa, desabafado, repensado ideias.

 

AN: Preciso saber maquiagem ou andar de salto para participar?

AC: Nada! Nossa abordagem se enfoca em tudo que acontece antes e depois das suas dragventuras – do processo de imaginar e planejar montações; e depois como você digere tudo que acontece quando estiver montada – o feedback do publico, reações das pessoas na rua, convívio com a família etc…

Por isso, nossos eventos geralmente não tratam assuntos de maquiagem, figurino, perucas ou performances de forma prática. Contam principalmente com a sua presença, disposição e papel, canetas e post-its fornecidos por nós.

 

AN: Quais os próximos passos do projeto?

AC: Em 2018, estamos trabalhando principalmente em gravar a primeira temporada do nosso podcast dragnóstico onde eu, Irmã Mary Poppers e Draga da Quebrada estaremos convidando drag queens e outras figuras do mundo drag para conversar conosco sobre como a arte drag tem impactado a vida delas. Ou seja, temos uma psiquiatra (Irmã), uma psicóloga (Draga) e uma arteterapeuta (eu!) e com esperanças que teremos conversas muito interessantes para se escutar.

Por enquanto, temos dois episódios de piloto no ar com Malonna e Mina de Lyon (veja todos os lugares em que dá para se escutar aqui). Esses pilotos foram gravados de forma amadora, mas entusiasta por eu mesma. Agora em diante teremos nosso produtor, Cairo Braga, aprontando essa primeira temporada para desfrutarmos até o final do ano.

Além disso, estaremos voltando ao Red Bull Station nos próximos meses para uma edição especial do #draglab, voltada especificamente ao mundo de design. Designers de todos os tipos se liguem que estaremos contando com sua participação!

Também estamos oferecendo um curso de montação de um dia como uma das varias recompensas disponíveis para apoiadores da campanha do livro do Rafael Suriani no catarse – um artista que cola retratos maravilhosos de drag queens pelas ruas do mundo.